Documentário Dines ou como resistir no jornalismo
O documentário “Dines, vínculos de liberdade”, sobre a trajetória profissional do ex-editor-chefe do Jornal do Brasil, estreou ontem, 26/5, no Espaço Petrobras de Cinema em São Paulo, com a presença do diretor Ugo Giorgetti e muitos contemporâneos de Alberto Dines (1932-2018).
Fundador do Observatório da Imprensa, parceiro de Perseu Abramo na reforma da Folha de São Paulo, o jornalista enfrentou momentos trágicos da história do país e da América Latina.
A primeira página do Jornal do Brasil sem manchete, só texto em letras grandes, com a notícia da derrubada do governo eleito de Salvador Allende no Chile (11/9/1973), é uma das capas mais bonitas e graficamente chamativas da história da imprensa brasileira.
“Se não do mundo”, comenta Mauro Malin no documentário, companheiro de Dines em muitas jornadas.
Militares compareceram à sede do jornal para proibir manchete sobre o golpe de Pinochet. Sem manchete, então, resolveu Dines. E conseguiu chamar mais atenção dos leitores do que com manchete.
Histórias saborosas como essas, de como resistir em tempos de censura e ditadura, perpassam a história do jornalista, demitido 10 vezes em sua carreira, por se confrontar com as direções dos jornais, que vergavam diante do poder.
Sua página sem manchete rendeu demissão semanas depois. Foi aconselhado a deixar o país e acabou na Universidade de Columbia, NY, um dos maiores centros de estudos de jornalismo do mundo na época.
De volta ao Brasil, foi para a Folha de S Paulo, em 1975, a convite de Perseu Abramo. Inaugurou a coluna Jornal dos Jornais, com crítica à cobertura de jornais. Mais uma vez incomodou os poderosos de então, Paulo Maluf entre eles. Os militares voltaram a pedir sua cabeça.
O dono do jornal, Octávio Frias de Oliveira, convocou todos os editores para a sala de reuniões, serviu uísque a todos, para anunciar a demissão de Dines e Abramo. Imediatamente, o jornalista José Trajano, já na área de esportes, apresentou sua demissão em solidariedade.
A vida do jornalista ficou marcada por importantes momentos de virada em que a imprensa brasileira cedeu diante das ditaduras. Sua primeira demissão aconteceu depois de noticiar, contra a vontade do proprietário do jornal Diário da Noite, Assis Chateaubriand, um sequestro de navio por grupo de salazaristas.
O documentário sobre a vida de Alberto Dines é o registro dos anos em que jornais impressos, nem todos, teimavam em cumprir seus papéis de fiscais do poder e pedras no sapato de ditaduras. Pode entrar na grade curricular dos cursos de jornalismo.
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