Backrooms e os labirintos da nossa mente
Confesso que, ao assistir ao trailer de Backrooms, fui imediatamente tomada pela curiosidade. Sempre tive fascínio pelo imaginário em torno desse universo — ainda que ele, inevitavelmente, desperte uma sensação angustiante de claustrofobia e inquietação. Fui ao cinema com expectativas elevadas e, felizmente, o filme compreende perfeitamente a natureza de sua proposta: instaurar uma tensão contínua, quase sufocante, que acompanha o espectador do início ao fim. E isso funciona de maneira notavelmente eficaz.
O que mais me surpreendeu, no entanto, foi a capacidade da obra de transcender o mero exercício estético da claustrofobia. Backrooms não se limita à repetição exaustiva de corredores labirínticos e atmosferas opressivas; há, aqui, uma tentativa genuína de transformar esse espaço em uma metáfora viva sobre a mente humana, o isolamento e os mecanismos psicológicos que construímos para sobreviver às próprias inquietações.
O longa poderia facilmente se tornar cansativo caso permanecesse restrito apenas à perspectiva da protagonista. Felizmente, escolhe expandir suas camadas temáticas e mergulhar em questões mais subjetivas e existenciais. O filme constantemente provoca o espectador a questionar os limites entre realidade e imaginação, entre o espaço físico e os labirintos internos da consciência.
As sessões de terapia do protagonista talvez sejam os momentos mais interessantes da narrativa. É justamente nelas que o filme encontra sua dimensão mais humana. O “lugar” deixa de ser apenas um cenário fantástico e passa a assumir uma materialidade simbólica: corredores infinitos tornam-se extensões da própria mente, portas transformam-se em traumas reprimidos e paredes parecem delimitar fronteiras entre sanidade e ruptura psicológica. Existe algo profundamente perturbador — e ao mesmo tempo fascinante — na maneira como o filme traduz visualmente o absurdo.
Visualmente, Backrooms é magnético. A fotografia possui uma identidade muito forte, criando imagens que permanecem na memória mesmo após o término da sessão. A trilha sonora atua como um organismo vivo dentro do filme, ampliando a sensação de desconforto e suspense sem jamais soar excessiva. Há um cuidado técnico evidente na construção da atmosfera, e isso demonstra uma compreensão bastante madura da linguagem cinematográfica.
Também considero extremamente interessante observar o crescimento de cineastas oriundos da internet e do YouTube dentro da indústria cinematográfica contemporânea. Há algo simbólico em ver um diretor tão jovem conduzindo uma obra carregada de personalidade estética e ambição conceitual. Isso evidencia não apenas talento, mas também uma nova forma de pensar o cinema — mais experimental, mais intuitiva e profundamente conectada às angústias contemporâneas.
A A24, mais uma vez, demonstra sua disposição em oferecer liberdade criativa a realizadores com visões autorais muito específicas, e isso fica evidente em Backrooms. O filme carrega uma identidade própria, mesmo em seus excessos.
Ao final da sessão, permanece aquela rara sensação de desconforto reflexivo — como se o filme continuasse ecoando mentalmente muito depois dos créditos finais. A claustrofobia inicial eventualmente dá lugar à imersão completa, e o espectador passa a percorrer, junto à narrativa, os próprios corredores psicológicos que o longa propõe.
Se tivesse que atribuir uma nota, daria um 7,5. Ainda que o terceiro ato apresente algumas fragilidades e caminhe para um desfecho levemente sensacionalista, o filme jamais perde sua força imagética ou seu potencial interpretativo. Backrooms talvez não seja uma obra perfeita, mas certamente é uma experiência cinematográfica instigante, carregada de simbolismos e reflexões que continuam reverberando muito depois de a tela escurecer.
Direção de Kane Parsons, no elenco Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia, Toby Hargrave, Chelah Horsdal, Philip Granger, Patrick Baynham
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Parabéns pelo artigo, não vi o filme ainda