ANÁLISE – Eremita (2020)

Critica de Filmes

Eremita é uma obra que utiliza uma história aparentemente simples para discutir um dos maiores conflitos da sociedade contemporânea: o choque entre tradição e progresso.

Muito além de apresentar um homem resistente à tecnologia, o filme propõe uma reflexão sobre o preço das transformações sociais e sobre aqueles que acabam ficando à margem desse processo.

Desde o início, acompanhamos Horácio, um homem que escolheu viver isolado do restante da sociedade, preservando uma rotina baseada no cultivo da terra, na simplicidade e na autossuficiência. Seu mundo, porém, começa a ser ameaçado pela chegada da tecnologia e pela promessa de modernização de um pequeno povoado que até então conhecia apenas a vida no campo, distante da internet e das facilidades oferecidas pelo desenvolvimento tecnológico.

Entretanto, reduzir o conflito de Horácio a uma simples resistência ao progresso seria superficial. Sua luta vai muito além da teimosia. O protagonista representa milhares de camponeses latino-americanos que, ao longo da história, foram pressionados a abandonar suas terras em nome de interesses econômicos, políticos e sociais. Dessa forma, Eremita transforma um drama individual em uma metáfora sobre os impactos da modernização em comunidades rurais.

A narrativa também dialoga com antigas disputas de poder que marcaram a formação das sociedades ocidentais. Ainda que de forma sutil, o roteiro remete aos conflitos históricos entre as elites políticas, os proprietários de terras e o campesinato, evidenciando como aqueles que detêm o poder frequentemente utilizam diferentes mecanismos para controlar o território e impor seus interesses.

Nesse contexto, o prefeito da cidade assume um papel central. Sua insistência para que Horácio venda suas terras não representa apenas um projeto de desenvolvimento, mas também a busca pela manutenção de seu poder político e de seus interesses pessoais. A terra deixa de ser apenas um espaço físico e passa a simbolizar resistência, identidade e liberdade.

Um dos aspectos mais marcantes do filme é sua estética. A decisão de Arturo Loaiza Espitia de utilizar a fotografia em preto e branco revela-se extremamente acertada. Além de conferir personalidade visual à obra, essa escolha estabelece um interessante diálogo com o cinema noir das décadas de 1940 e 1950. Assim como os grandes clássicos desse movimento cinematográfico, Eremita trabalha temas como corrupção, ambição, manipulação e desilusão humana, utilizando uma linguagem visual elegante e expressiva.

A trilha sonora também merece destaque. Discreta, porém eficiente, ela potencializa o impacto emocional de diversas cenas e complementa a atmosfera contemplativa construída pela fotografia monocromática.

Horácio faz jus ao título do filme. Seu isolamento é uma escolha de vida, não uma punição. No entanto, essa tranquilidade começa a ruir quando pessoas movidas por interesses próprios tentam convencê-lo a abandonar suas terras.

É nesse momento que surge Amanda, personagem vivida por Linda Baldrich. A mando do prefeito, ela tenta seduzir Horácio para persuadi-lo a vender sua propriedade. Sua presença remete diretamente às tradicionais figuras femininas do cinema noir, conhecidas como femme fatale. Embora Amanda também seja vítima das circunstâncias, sua função narrativa representa a sedução como instrumento de manipulação política e econômica.

O elemento da violência aparece através de Victor, marido de Amanda. Ao descobrir a aproximação entre sua esposa e Horácio, ele reage de forma brutal, reforçando outra característica típica do noir: personagens consumidos pelo ciúme, pela violência e pela degradação moral.

Entretanto, Eremita não se resume aos conflitos e às disputas de poder. Em seu segundo ato, o filme apresenta um dos momentos mais bonitos da narrativa: a amizade entre Horácio e o jovem Samuel.

É justamente a partir desse encontro que a obra realiza uma de suas escolhas estéticas mais simbólicas. Aos poucos, o preto e branco dá lugar às cores, representando a transformação interior do protagonista. Não se trata de uma aceitação incondicional da tecnologia, mas da descoberta de que o progresso também pode servir para aproximar pessoas, ampliar horizontes e enriquecer a experiência humana.

Samuel, interpretado por Kamilo Rojas, torna-se uma verdadeira ponte entre dois mundos. Por meio dele, Horácio conhece o rádio, aprende sobre diferentes assuntos descobertos na internet e vivencia experiências simples, mas profundamente significativas, como andar de bicicleta pela primeira vez. A amizade construída entre os dois personagens é extremamente sincera e representa o ponto de equilíbrio do filme.

Kamilo Rojas entrega uma atuação sensível e natural, funcionando como contraponto perfeito à interpretação mais introspectiva de Alejandro Aguilar. Juntos, ambos constroem uma relação marcada pela ternura e pela troca de conhecimentos entre diferentes gerações.

No geral, Eremita reúne diversos elementos que caracterizam um bom drama: conflitos de poder, crítica social, personagens complexos, belas escolhas estéticas e reviravoltas capazes de envolver o espectador do início ao fim.

Mais do que discutir os avanços tecnológicos, o filme questiona até que ponto o progresso pode justificar o apagamento de modos de vida tradicionais. Ao mesmo tempo, evita assumir uma postura radical contra a modernidade, demonstrando que tradição e inovação não precisam ser forças opostas, mas podem coexistir quando há respeito, diálogo e compreensão.

Com uma fotografia belíssima, uma direção segura e um roteiro carregado de simbolismos, Eremita é uma obra que provoca reflexão sobre identidade, pertencimento e resistência. Ao final da projeção, fica evidente que o verdadeiro conflito do filme nunca foi entre o homem e a tecnologia, mas entre diferentes formas de enxergar o mundo e o lugar que cada indivíduo deseja ocupar dentro dele.

Sinopse:
Um homem isolado luta, ao lado de seu único amigo, para proteger seu mundo do avanço tecnológico que ameaça destruir sua paz.

Direção: Arturo Loaiza Espitia

Elenco:
Alejandro Aguilar, Kamilo Rojas, Sandra Serrato, Linda Baldrich e Alexander Laiseca.

Filme disponível no catalogo da UnivFilms:https://theunivfilms.com

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