Análise – “A VOLTA DO MESTRE DOS BRINQUEDOS” (1991)

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Uma das regras não escritas do cinema é que todo filme fica melhor com fantoches. Não há literalmente nenhum filme feito na história que não se beneficiaria da presença de pelo menos um muppet. Outra regra mais reconhecida é a de que um filme pode ser considerado ruim sob vários aspectos, mas se mostrar nazistas sendo massacrados a grande maioria do público vai passar um pano. Pois o terceiro filme da franquia Mestre dos Brinquedos une essas duas virtudes da maneira mais óbvia, oferecendo ao espectador o espetáculo de fantoches matando nazistas com requintes de crueldade e sanguinolência.

Em “A Volta do Mestre dos Brinquedos” David Decotau retorna para a direção desse primeiro prequel da franquia, numa história que se passa na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, e dessa vez tendo como protagonista o recorrente personagem de Andre Toulon, o próprio Mestre dos Brinquedos. O ator britânico Guy Rolfe encarna o terceiro Toulon da franquia numa abordagem que parece mesclar os caráteres opostos dos dois intérpretes anteriores. No primeiro filme, a figura idosa e fragilizada de William Hickey apresentava a ideia de um Toulon benevolente que servia como farol de moralidade para seus fantoches. Já Steve Welles cristalizou Toulon como vilão no segundo filme, interpretando sua versão mais jovem caindo na tentação de usar magia negra em suas criações, e depois sua inevitável ressureição monstruosa, como um zumbi desfigurado matando pessoas inocentes. Rolfe interpreta Toulon num meio termo entre esses dois extremos: um homem mais velho, mas ainda motivado e dinâmico, que apenas passa a se entregar a seus impulsos mais cruéis e sanguinários como resposta à violência nazista.

O filme já começa retratando essa violência ao apresentar o oficial nazista Major Krauss, interpretado por Richard Lynch, trabalhando num projeto secreto junto do Doutor Hess. O cientista vivido por Ian Abercrombie recebeu ordens do alto escalão nazista para tentar reanimar os cadáveres de soldados mortos para que retornem ao front contra as forças aliadas. Após vários fracassos em suas experiências, os dois descobrem que o famoso titereiro Andre Toulon está se apresentando em Berlim, e conseguiu de alguma forma dar vida aos seus fantoches. Os dois tentam persuadi-lo a compartilhar seu segredos, mas os métodos truculentos de Krauss acabam causando a morte de Elsa (Sarah Douglas), a esposa de Toulon que conhecemos no filme anterior, então interpretada por Elizabeth Maclellan. A partir daí, o filme se torna uma história de vingança, na qual Toulon e seus fantoches massacram todos os nazistas responsáveis pela morte de Elsa, e ainda aproveita para revelar as origens de Blade e Leech Woman, dois dos bonecos clássicos da franquia.

A performance de Guy Rolfe é eficaz ao retratar Toulon como esse anti-herói nada relutante, que enfim sente-se livre para liberar a raiva de seus fantoches sobre o mundo. Mas é Richard Lynch quem realmente rouba a cena aqui, canalizando vilania clássica e canastrice ao dar vida ao Major Krauss, numa composição que parece fazer referência estética a Klaus Kinski, que por sua vez foi uma das inspirações que David Allen usou na criação do fantoche Blade, com seu cabelo loiro e feições caveirosas. Até mesmo a forma como a câmera captura a figura de Lynch sugere uma criatura grotesca, evidenciando a textura quase reptiliana da pele de seu rosto e evidenciando os tufos de pelo saindo de suas narinas.

Se bem que – sejamos sinceros – isso não deve ter sido intencional. A verdade é que esse terceiro filme do Mestre dos Brinquedos é o mais tecnicamente fraco da trilogia, sendo que os outros dois não eram exatamente grandes exemplos de montagem, fotografia e direção de atores. O motivo para eu continuar elogiando o design dos bonecos em todos esses filmes é que é o único elemento consistentemente bom. Vemos aqui gambiarras vergonhosas como o uso de óbvias fotos estáticas em imagens externas e establishing shots (um pecado recorrente dos dois filmes anteriores), assim como imagens reais de arquivo da Berlim na época da guerra que em nada condizem com a estética do resto do filme. Numa cena em que o estreante fantoche Six-Shooter – um caubói sorridente de seis braços empunhando revólveres – sobe a lateral de um prédio como uma aranha, as cordas segurando -o podem ser vistas claramente. Assim como a respiração e o movimento dos olhos do ator interpretando o cadáver de uma das vítimas mutiladas dos bonecos. É uma falta de cuidado que pode ser explicada por uma produção de baixo orçamento lançada diretamente para vídeo, onde seria vista em fitas VHS de baixa qualidade em TVs de tela pequena. Eu imagino o diretor dizendo: “Não precisamos aparar os pelos do nariz do Richard e esse cara não precisa fingir tão bem que está morto, ninguém vai ver isso em HD. Aliás, o que é HD?” É uma pena. Apesar da baixa qualidade técnica, os personagens, tanto humanos quanto artificiais, são interessantes e o roteiro possui alguma ambição, ainda que resultem num filme meio ruinzinho. Porém, reiterando meu argumento inicial, são bonecos amaldiçoados assassinando nazistas, então é uma puta de uma obra-prima.

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