Nutricionista Giovana Aranha

Nem toda fome é física e o cérebro pode explicar isso

Saúde

Nutricionista Giovana Aranha explica como emoções podem influenciar a alimentação e ensina a reconhecer os sinais da fome emocional

Comer fora dos horários habituais ou sentir uma vontade repentina de consumir doces, chocolates ou outros alimentos mais palatáveis é uma situação comum para muitas pessoas. Embora esse comportamento seja frequentemente associado à falta de disciplina ou força de vontade, ele pode ter outra origem. Em muitos casos, a vontade de comer surge como resposta a emoções e não, necessariamente, a uma necessidade fisiológica de energia.

O tema tem ganhado cada vez mais relevância diante de uma rotina marcada por estresse, ansiedade, privação de sono e sobrecarga mental. Quando as emoções passam a influenciar as escolhas alimentares, a comida pode assumir temporariamente uma função de conforto, alívio ou recompensa.

Segundo a nutricionista Giovana Aranha, compreender a diferença entre fome física e fome emocional é um passo importante para desenvolver uma relação mais consciente e equilibrada com a alimentação.

“A fome física costuma aparecer de maneira gradual e tende a aumentar conforme o tempo passa. Além disso, geralmente pode ser satisfeita por diferentes alimentos. Já a fome emocional costuma surgir de maneira mais súbita e frequentemente vem acompanhada de um desejo específico, principalmente por alimentos associados a prazer e recompensa”, explica.

Isso acontece porque comer não envolve apenas a necessidade de fornecer energia ao organismo. A alimentação também está relacionada aos circuitos cerebrais de prazer e recompensa. Em momentos de estresse, ansiedade, tristeza, frustração ou até mesmo tédio, o cérebro pode buscar experiências capazes de proporcionar uma sensação rápida de bem-estar — e determinados alimentos podem cumprir temporariamente esse papel.

Alguns sinais podem ajudar a perceber quando existe um componente emocional por trás da vontade de comer. Entre eles estão o desejo intenso por um alimento específico, a sensação de urgência para comer e a dificuldade de considerar outras opções naquele momento.

Outro ponto importante é observar o que acontece após a alimentação. Quando comemos em resposta à fome física, é esperado que os sinais de saciedade contribuam para interromper naturalmente a refeição. Já em episódios de alimentação emocional, a pessoa pode continuar buscando comida mesmo sem fome fisiológica e, posteriormente, experimentar sentimentos como culpa, frustração ou arrependimento.

Para Giovana Aranha, interpretar esse comportamento simplesmente como falta de força de vontade pode dificultar ainda mais o processo.

“Quando uma pessoa utiliza repetidamente a comida para aliviar uma emoção, precisamos olhar além do alimento. O problema não está necessariamente no chocolate, no doce ou na comida em si, mas em compreender qual necessidade está tentando ser atendida através dela. A comida pode proporcionar conforto naquele momento, mas não resolve a origem da emoção”, afirma.

Estresse crônico, ansiedade, noites mal dormidas, sobrecarga de trabalho, conflitos emocionais e preocupações constantes podem favorecer esse mecanismo. Por isso, cuidar da alimentação sem considerar o contexto emocional e comportamental pode ser insuficiente para algumas pessoas.

Uma estratégia simples para aumentar essa percepção é criar uma pequena pausa antes de comer e fazer algumas perguntas: “Há quanto tempo fiz minha última refeição?”, “Eu comeria uma refeição de verdade agora ou desejo apenas um alimento específico?”, “Estou sentindo fome no corpo ou buscando algum tipo de conforto?” e “O que estou sentindo neste momento?”.

O objetivo não é impedir a pessoa de comer, mas ajudá-la a compreender o que está por trás daquela escolha.

A nutricionista também alerta que dietas excessivamente restritivas podem piorar a relação com a comida. Quanto maior a sensação de proibição em torno de determinados alimentos, maior pode ser a preocupação com eles e, em algumas pessoas, o risco de episódios de perda de controle alimentar.

“Não conseguimos construir uma relação saudável com a alimentação baseada apenas em regras, culpa e proibições. Alimentação saudável também envolve flexibilidade, consciência e autonomia. Quando aprendemos a reconhecer os sinais do corpo e os gatilhos emocionais, deixamos de depender exclusivamente do controle e começamos a fazer escolhas com mais consciência”, destaca Giovana.

Além de uma alimentação adequada, sono de qualidade, atividade física, momentos de lazer, manejo do estresse e cuidado com a saúde emocional podem contribuir para reduzir episódios de alimentação emocional.

Quando esses episódios se tornam frequentes, provocam sofrimento, sensação recorrente de perda de controle ou interferem na qualidade de vida, é importante buscar acompanhamento profissional. O trabalho conjunto entre nutricionista e psicólogo pode ajudar a compreender os gatilhos envolvidos e desenvolver estratégias individualizadas para lidar com eles.

Reconhecer que nem toda vontade de comer representa uma necessidade física muda a maneira como enxergamos a alimentação. Em vez de travar uma batalha constante contra a comida, o caminho pode estar em aprender a interpretar os sinais do corpo, compreender as próprias emoções e construir uma relação mais consciente, flexível e equilibrada com o alimento.

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