Casas de Instagram: quando a estética das redes começa a apagar a identidade de quem mora

Comportamento

Arquiteta e pesquisadora em Neuroarquitetura Inaha Paz explica como a busca por ambientes visualmente perfeitos pode transformar a casa em cenário e enfraquecer a relação de pertencimento com o espaço

Crédito: Divulgação

Uma casa pode ser bonita, organizada e visualmente agradável e, ainda assim, não dizer nada sobre quem vive nela. Com a influência cada vez maior de plataformas como Instagram, Pinterest e TikTok sobre decoração e arquitetura, ambientes com determinadas cores, móveis, objetos e estilos passaram a ser reproduzidos em diferentes casas, criando uma estética cada vez mais semelhante entre espaços que deveriam expressar histórias distintas.

Arquiteta, pesquisadora em Neuroarquitetura e criadora das metodologias Casa Curativa® e Afroneuroarquitetura®, Inaha Paz atua há 16 anos com arquitetura, interiores e consultoria. Baiana de Catu, com formação em Comunicação Social, Design de Interiores e especialização em Neuroarquitetura e Design do Bem-Estar Humano, ela pesquisa há oito anos as relações entre espaço, cérebro, comportamento, memória, território e identidade. Em seu trabalho com Afroneuroarquitetura®, investiga também como raça, ancestralidade e experiências de corpos negros e racializados atravessam a relação com os espaços.

É a partir dessa perspectiva que Inaha observa um fenômeno cada vez mais presente na relação contemporânea com a casa: o ambiente deixa de ser apenas um lugar para viver e passa também a ser pensado para ser fotografado, compartilhado e reconhecido visualmente nas redes.

Para a pesquisadora, o problema não está em buscar referências ou gostar de uma determinada estética, mas no momento em que a referência passa a ocupar o lugar da identidade.

“Uma referência pode nos inspirar, mas a casa não deveria precisar se parecer com a casa de outra pessoa para ser considerada bonita ou bem resolvida. Quando retiramos da casa os objetos, as cores, as memórias e as marcas de quem vive ali para reproduzir uma imagem que funciona nas redes, corremos o risco de transformar o espaço em cenário”, explica.

A circulação de imagens nas redes sociais criou um repertório visual compartilhado. Uma determinada combinação de cores, um modelo de sofá, uma parede, uma luminária ou uma composição podem se tornar tendência e aparecer repetidamente em projetos e ambientes domésticos. Esse processo não acontece apenas na decoração. As próprias plataformas favorecem a circulação de imagens visualmente reconhecíveis, fazendo com que determinadas escolhas estéticas sejam reproduzidas em larga escala.

É o que pesquisadores e profissionais do design vêm discutindo a partir de conceitos como “Instagrammability”, relacionado à capacidade de um espaço produzir imagens atrativas para as redes, e à chamada homogeneização dos interiores. Para Inaha, esse movimento merece ser observado também pelo impacto que pode ter na relação das pessoas com suas próprias casas.

“Quando todo mundo começa a buscar a mesma referência, existe uma perda de diversidade. E uma casa deveria ser um dos lugares onde a nossa história pode aparecer sem precisar pedir autorização para uma tendência. O espaço pode revelar de onde viemos, o que valorizamos, quem amamos e quais memórias carregamos”, afirma.

Na Neuroarquitetura, a relação entre espaço e experiência humana considera que os ambientes não são percebidos apenas por suas características físicas. Cores, texturas, iluminação, sons, objetos e organização espacial participam da maneira como as pessoas percebem e experimentam determinado lugar.

Por isso, uma casa completamente orientada pela estética das redes pode até produzir uma imagem visualmente coerente, mas não necessariamente produzir a mesma sensação de pertencimento para quem vive ali.

Um móvel herdado, uma fotografia de família, uma peça produzida por um artista local, uma lembrança de viagem ou mesmo uma parede com uma cor escolhida por uma memória afetiva podem ter um significado que nenhuma tendência consegue reproduzir.

“Existem objetos que talvez não funcionem para uma fotografia de revista, mas que fazem uma pessoa se sentir em casa. E isso também é arquitetura. O valor de um espaço não está apenas naquilo que ele mostra, mas naquilo que ele desperta em quem o habita”, destaca Inaha.

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