Shindo Renmei: a extrema direita nipônica pós eixo

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Organização se formou no Brasil a fim de perseguir imigrantes que admitiam a rendição japonesa na segunda guerra mundial

Após a rendição do Japão no conflito mundial que se encerrou em 1945 com a promulgação do termo de rendição feito pelos aliados e assinado pelo então Ministro das Relações Exteriores Shigemitsu Mamoru em nome do imperador Hirohito que governava o país asiático, aliado da Alemanha nazista e Itália fascista, houve os que não aceitavam tal acontecimento.

Ao contrário dos que muitos pensam até os dias atuais, isto não se resumiu ao outro lado do planeta mas também, chegou ao Brasil.

Pós-guerra longe de casa

Um grupo de imigrantes japoneses convertidos a extrema direita ultranacionalista e instalada principalmente nas cidades do interior paulista, se fez conhecida como Shindo Renmei ou em português como “Liga do Caminho dos Súditos”.

O seu nascimento foi no ano de 1942 ainda durante a segunda guerra mundial pelo ex-general Junji Kikawa, visando manter a união da colônia e o “espírito japonês”, intitulado de “Yamato Damashii.”

Foto: Ex-General Junji Kikawa – criador da Shindo Renmei – reprodução

O objetivo era a de convencer através de notícias falsas em diferentes meios de comunicação disponíveis naquele momento, de que o Japão não havia sido derrotado mas sim vencido a guerra, além de que a rendição do imperador japonês não passava de um boato, com a finalidade de desestabilizar a moral nipônica.

Com raiz inicial na cidade de Marília-SP, o grupo começou a perseguir os issei (primeira geração de imigrantes japoneses nas Américas) e nipo–brasileiros que viam como fato a derrota japonesa noticiada.

No período entre 1946 e 1947, a Shindo Renmei deixou ao menos 147 vítimas feridas sendo 23 de forma fatal.

Alvos eram escolhidos por integração com brasileiros

Os integrantes da milícia extremista miravam principalmente membros da comunidade japonesa que interagiam com os locais e eram mais notáveis, por terem maior acesso ao noticiário. Seus alvos eram chamados de “makegumi” (derrotistas), sob alegação de “amor à pátria”.

Após seis meses do fim do conflito mundial, o imigrante Ikuta Mizobe de 53 anos foi brutalmente assassinado por “corações sujos”, nome dado aos executores do grupo criminoso.

A vítima tinha acesso as informações do exterior pelo rádio, e trabalhava como gerente de uma cooperativa no ramo da agricultura. Era costume do gerente informar sobre a guerra a quem perguntava sobre os acontecimentos, como aponta a sua filha Aiko Higuchi, em entrevista à BBC. O crime ocorreu em Bastos-SP não sem antes, com uma ameça:

“Meu pai recebeu carta com duas palavras: pessoa e coração, cortado com uma faca. Minha mãe queimou a carta. Desde aquele dia eu não consegui mais dormir, toda noite ia pra cama pensando.” – afirma.

Foto: Ikuta Mizobe (em pé ao centro) junto a sua esposa e filhos – arquivo familiar pessoal

Ikuta havia fechado o portão de sua casa e caminhado até o banheiro externo, quando foi surpreendido por dois homens, relata Aiko:

“Dois homens estavam escondidos. Quando ele estava fechando a porta, eles atiraram. Minha mãe ouviu os tiros e saiu, e viu dois homens fugindo no cavalo. Mamãe falou depois: ‘nunca imaginou que tinha tanto sangue no corpo’. Ela limpou meio balde de sangue”.

A dissolução do grupo

A organização de extrema direita teve seu fim decretado somente após a prisão de alguns de seus líderes efetuadas no bairro Jabaquara, na capital São Paulo. Registros da época apontam cerca de 31 mil pessoas fichadas como suspeitas de ligações com o grupo, espalhados por diversas regiões do estado.

Muitos membros foram condenados com penas entre 1 e 30 anos de prisão e então Presidente Eurico Gaspar Dutra expulsou 81 imigrantes acusados de terrorismo.

Apesar das penas impostas, boa parte dos acusados foi colocado em liberdade e posteriormente todos os que haviam sido presos foram também libertos, através de um decreto emitido por Juscelino Kubitschek.

Para saber mais

O livro “Corações Sujos” do jornalista brasileiro Fernando de Morais é uma referência bibliográfica acerca do tema, tendo recebido o prêmio “Jabuti” nas categorias de “Reportagem e Não-Ficção”, em 2001.

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