Neste domingo, após quase dez meses fora do território nacional e oito tentativas frustradas, María Corina Machado reapareceu de pé no santuário da Divina Pastora, em Barquisimeto. A líder opositora e vencedora do Nobel da Paz voltou a pisar solo venezuelano por meio de uma discreta manobra terrestre pela fronteira colombiana, uma incursão que desestabiliza o tabuleiro político tutelado por Washington e executado pelo governo de Delcy Rodríguez.
O retorno põe fim a uma peregrinação de desencontros que ameaçava confiná-la ao papel de mera observadora distante. Desde que Nicolás Maduro foi capturado por forças norte-americanas em 3 de janeiro, o processo de transição avançava sob uma coreografia milimetricamente calculada entre a Casa Branca e a liderança de Rodríguez, canal de interlocução que deixou à margem a figura eleitoral mais respaldada do país após os pleitos de 2024.
Para cruzar a linha limítrofe, Machado precisou da anuência tácita do Departamento de Estado e de semanas de articulações reservadas com diversas chancelarias da região. Diferente de junho, quando o regime chegou ao extremo de fechar o espaço aéreo para barrar a sua passagem, ou de setembro, quando um plano para cruzar a pé foi abortado de última hora por exigências do mandatário colombiano Abelardo de la Espriella após reunir-se em Barranquilla com Marco Rubio, desta vez as travas não foram acionadas. Washington conhecia o trajeto e optou por não bloqueá-lo.
Questionado sobre o fato, Donald Trump adotou uma calculada distância verbal, elogiando a líder sem assumir a autoria da operação: “É uma mulher muito agradável. Ela me entregou o seu Prêmio Nobel, então o que mais posso dizer? Espero que ela esteja em segurança. Mas estamos indo muito bem na Venezuela”. A declaração sintetiza a ambivalência com que o atual governo dos EUA vem lidando com o cenário: enquanto nomes do alto escalão, como o subsecretário de Estado Christopher Landau, defendiam a abertura de caminhos para Machado, a Casa Branca costurava acordos energéticos pragmáticos com Delcy Rodríguez e atraía à mesa de negociações em Washington figuras como Dinorah Figuera.
Esse formato de negociação direta tratava da reformulação do Tribunal Supremo de Justiça, da composição do Conselho Nacional Eleitoral e do cronograma para novas eleições presidenciais, tudo sem a presença física ou o aval definitivo de Machado, que vinha expressando duras ressalvas aos rumos do pacto.
A presença física de Machado no terreno abala a zona de conforto da ordem interina e força tanto Caracas quanto Washington a recalibrar uma transição em que a voz de maior legitimidade eleitoral decidiu, por iniciativa própria, voltar a se manifestar a partir de dentro do país.
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