Marjorie Piffer constrói carreira em uma área que combina técnica, pesquisa e criação de personagens.
Uma cicatriz que aparece por poucos segundos na tela pode exigir horas de preparação nos bastidores. O mesmo ocorre com o envelhecimento de um personagem, a reprodução de um ferimento ou a criação de uma criatura fantástica. Na indústria do entretenimento, a maquiagem de efeitos especiais integra a narrativa e ajuda a transformar o que foi imaginado no roteiro em uma imagem convincente para o público.
O trabalho exige muito mais do que habilidade com pincéis e pigmentos. Maquiadores de cinema, televisão, teatro e produções ao vivo precisam estudar o contexto da história, as características dos personagens, o período retratado e as condições em que as cenas serão gravadas. A classificação profissional O*NET, mantida pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, descreve a atividade como a aplicação de maquiagem em artistas para representar a época, o ambiente e as circunstâncias de cada papel. A profissão inclui funções como maquiador de cinema e televisão, designer de próteses e artista de efeitos especiais.
Nesse mercado, a brasileira Marjorie Piffer vem desenvolvendo uma trajetória que reúne maquiagem de beleza, caracterização e efeitos especiais. Atuando profissionalmente desde 2017, ela já participou de ensaios fotográficos, editoriais de moda, produções ao vivo, feiras de terror e cosplay e trabalhos realizados em sets de filmagem. Seu repertório técnico inclui aplicação de próteses, aerografia, maquiagem teatral, cobertura de tatuagens, colocação e manutenção de perucas e composição visual de personagens.
A formação de Piffer começou no campo do design de moda, na Faculdade Metropolitana Unidas, em São Paulo. O contato com cores, proporções, texturas e construção de imagem tornou-se parte da base utilizada posteriormente em sua atuação como maquiadora.
Em 2019, ela concluiu uma formação profissional em maquiagem e efeitos especiais no Hollywood Makeup Lab, em parceria com o Instituto de Cinema, também em São Paulo. A formação foi conduzida pela maquiadora Bruna Nogueira, profissional reconhecida internacionalmente por sua atuação na maquiagem cinematográfica e que teve papel importante no desenvolvimento técnico de Marjorie Piffer durante esse período. Em maio de 2025, já nos Estados Unidos, Marjorie realizou em Los Angeles um novo treinamento em maquiagem de efeitos especiais baseado nas técnicas associadas a Dick Smith, um dos principais nomes da caracterização cinematográfica.
Smith tornou-se conhecido por desenvolver métodos que permitiam aplicar peças de espuma de látex em diferentes áreas do rosto, preservando os movimentos e as expressões dos atores. Suas técnicas contribuíram para transformar a maquiagem protética em uma ferramenta mais realista e funcional para o cinema. A continuidade dos estudos demonstra a importância da atualização constante em uma profissão que evolui conforme surgem novos materiais, tecnologias e demandas da indústria audiovisual.
A formação continuada é uma característica importante da profissão. Materiais, câmeras e métodos de filmagem mudam constantemente, obrigando os profissionais a acompanhar novas técnicas e produtos. Uma maquiagem que funciona para o palco, por exemplo, pode parecer excessiva diante de uma câmera de alta definição. Já uma prótese precisa resistir ao calor, ao suor, ao movimento e às longas jornadas de gravação sem comprometer o conforto do ator.
O currículo de Marjorie Piffer registra participação em produções audiovisuais brasileiras, além de trabalhos para fotografia, moda, entretenimento e caracterização artística. Entre esses projetos está sua participação na equipe de maquiagem do longa-metragem “A Menina Que Matou os Pais”, trabalho realizado ao lado de Bruna Nogueira e que integra os créditos oficiais do filme. Sua experiência como profissional autônoma também inclui maquiagem para bandas, eventos de cultura pop e produções que exigem cobertura de tatuagens, aplicação de perucas e criação de personagens.
Uma das principais responsabilidades de um maquiador é garantir a continuidade visual, como em cenas, que são raramente gravadas na ordem em que aparecem no filme. O profissional precisa documentar cada detalhe da caracterização. Fotografias, anotações, medidas, combinações de cores e listas de produtos ajudam a reproduzir o mesmo resultado dias ou semanas depois.
Esse controle é especialmente importante em cenas que mostram a evolução de um ferimento, o envelhecimento gradual de um personagem ou alterações físicas que acompanham o desenvolvimento da história. Pequenas diferenças podem comprometer a continuidade quando as imagens são reunidas na edição.
A atuação também envolve colaboração constante. Maquiadores trabalham em diálogo com direção, fotografia, figurino, cabelo, cenografia e efeitos visuais. A iluminação pode alterar a percepção das cores, enquanto o figurino e o cenário influenciam a composição final do personagem.
O reconhecimento da área dentro da indústria cinematográfica pode ser observado na própria estrutura da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O Oscar mantém uma categoria específica para maquiagem e penteado, com avaliação realizada por profissionais do setor. As regras da Academia consideram o uso de cosméticos, próteses e outros elementos aplicados diretamente ao rosto, à cabeça ou ao corpo dos intérpretes.
Nos Estados Unidos, o mercado formal de maquiadores teatrais e de performance reunia aproximadamente 7 mil profissionais em 2024. A projeção oficial indica crescimento de cerca de 8% até 2034, quando o número de trabalhadores poderá chegar a 7,6 mil. A estimativa é de aproximadamente 1.100 oportunidades por ano, incluindo novas vagas e substituições de profissionais que deixam a atividade.
Ao reunir experiências em moda, fotografia, atendimento ao público, produções audiovisuais e efeitos especiais, a brasileira Marjorie Piffer, amplia sua capacidade de atuar em projetos com exigências distintas. Seu percurso também mostra como a carreira de maquiador profissional é construída de forma gradual, entre cursos, trabalhos independentes e participação em equipes de produção.
Para o espectador, o resultado final pode parecer apenas parte natural do personagem. Nos bastidores, porém, cada transformação representa uma combinação de planejamento, técnica e linguagem visual. É nesse espaço, entre a aparência real do ator e a identidade criada para a história, que profissionais como Marjorie Piffer desenvolvem seu trabalho.
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