Uma obra-prima intimista, com uma crítica social poderosa e uma narrativa sensível, que reafirma a qualidade do cinema brasileiro. Dirigido por Allan Deberton, o longa conquistou reconhecimento no Festival de Gramado e foi escolhido para concorrer pelo Brasil ,a uma vaga de indicação da categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar.
Com um olhar delicado, mas contundente, o filme aborda questões fundamentais relacionadas à infância, ao amadurecimento e à juventude, utilizando o drama intimista para discutir temas como saúde, sexualidade, aceitação e os preconceitos impostos pela sociedade.
O roteiro de André Araújo e Camila Agustini aposta em uma abordagem realista para contextualizar questões contemporâneas, promovendo reflexões sobre debates cada vez mais presentes no Brasil e no mundo.
A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 11 anos que vive com a avó, Dilma (Teca Pereira), em uma pequena cidade do Ceará. Apaixonado por futebol, Gugu também gosta de maquiagem e de elementos associados ao universo feminino. Sua maneira espontânea de expressar a própria identidade, no entanto, incomoda o pai, Batista (Lázaro Ramos), que demonstra grande preocupação com a própria imagem e não aceita a homossexualidade do filho, temendo a forma como a sociedade irá enxergá-lo.
Paralelamente, Dilma começa a apresentar sintomas cada vez mais graves de Alzheimer, e o avanço da doença acrescenta uma nova camada emocional à narrativa. A relação entre avó e neto se torna um dos pontos centrais da trama, evidenciando a fragilidade dos vínculos familiares e os desafios de lidar com as transformações impostas pela vida.
O elenco também tem o destaque da ótima atuação de Carlos Francisco, ator que vem consolidando uma trajetória expressiva no cinema brasileiro, com trabalhos em produções como Bacurau, Marte Um, Estranho Caminho e O Agente Secreto.
Em apenas 93 minutos, o longa desenvolve uma ampla rede de questões sociais e humanas, abordando temas como corrupção, violência, infância, adolescência, sexualidade e relações familiares. A força do filme está justamente na maneira como esses assuntos são incorporados à narrativa sem perder a intimidade e a dimensão humana de seus personagens.
Em alguns momentos, a obra remete a filmes como Marte Um e Cafarnaum, especialmente pela maneira como utiliza as relações familiares e as experiências individuais para construir reflexões sociais mais amplas.
Visualmente, o longa se destaca pelo uso de cores vibrantes, paletas cromáticas expressivas e planos abertos e gerais que ajudam a construir a atmosfera da narrativa. A direção de Allan Deberton é delicada e segura, conduzindo a história com sensibilidade e valorizando tanto os personagens quanto o contexto em que estão inseridos.
O resultado é um filme brasileiro de grande qualidade artística, que combina emoção, identidade visual e crítica social para discutir temas urgentes sem abrir mão da delicadeza. Uma obra que provoca reflexão e reafirma o potencial do cinema nacional de contar histórias particulares capazes de dialogar com questões universais.
O elenco também conta com Georgina Castro, Alda Pessoa, David Santos, Beatriz Carwile, Luan Vasconcelos, Nathyel Martins, Manuela Paulino, Pablo Vinicius, Enzo Uejo.
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